Alimentação e compaixão: Por quê? Para que? Como?

Você sabe o que é compaixão? A compaixão é estar com o outro, nem acima e nem abaixo, mas junto, na tentativa de aliviar o sofrimento. Segundo Thupten Jinpa, autor do livro “Um coração sem medo”, a compaixão é uma qualidade inata e sua expressão através da bondade é algo completamente natural”. A compaixão nos dá a possibilidade (recursos) de tocar a dor de forma mais suave; nos relacionando melhor com ela.

De acordo com Kristin Neff, uma das maiores pesquisadoras em auto compaixão no mundo, existem três elementos fundamentais para o cultivo da compaixão:

  1. Mindfulness: você precisa estar atenta (o) para perceber o que está acontecendo com você, o seu sofrimento e a percepção do outro.
  2. Humanidade compartilhada: o sentimento e a conexão uns com os outros, não estamos isolados (interser)
  3. Bondade amorosa: sermos amáveis conosco, com o outro, em vez de ser tão crítico.

Principalmente para as mulheres, a ideia de cuidar do outro, pensar no bem estar do outro primeiro, colocar-se em segundo plano, é muito comum e até estimulada sob pena de ser vista como egoísta, uma má mãe, esposa, irmã ou amiga.

Sabemos da literatura científica que aproximadamente 78% das pessoas são mais compassivas com os outros do que consigo mesmas. Como desenvolver a autocompaixão  diante deste cenário histórico? Por quê? Para que?

A autocompaixão não implica em autossuficiência, muito pelo contrário, o empoderamento surge da humildade e, ao mesmo tempo coragem, de poder receber compaixão do outro, pedir o que necessita, ser autêntico. A imagem que me vem é a do filme monstros SA, em que no início do filme os monstros conseguiam obter energia a partir do medo das crianças e ao final descobrem que a alegria, ou no nosso caso o amor, conseguiam fornecer muito mais energia. Aprendemos a nos desenvolver pessoal e profissionalmente a partir de diferentes medos; de não ser aceito, de não ser suficiente, de não ser querido, etc. Viver desta forma, em estado de alerta constante não nos faz bem, não nos traz saúde. As práticas de compaixão podem desativar o sistema de ameaça, fuga e luta, trazendo assim melhor qualidade de vida.

Precisamos acolher nossa criança interior, a nós, em todos os momentos, em especial nos momentos dolorosos.

Diante de uma situação desafiadora precisamos reconhecer nossos sentimentos e necessidades não satisfeitasAs necessidades necessitam ser reconhecidas, não necessariamente satisfeitas para então poder reconhecer as necessidades e sentimentos do outro.

O que sentimos está baseado não no outro, mas nas nossas necessidades. A medida que conseguimos nomear o sentimento, a amígdala, parte do cérebro responsável pela mediação de respostas fisiológicas à ameaças, nossa reatividade; diminui sua atividade.

Por quê e para que sermos autocompassivos? A prática de autocompaixão é para nos acompanhar durante o processo, não para resolver ou mudar algo. Por exemplo: a mãe abraça e cuida do filho gripado apesar de saber que sua atitude não irá livrá-lo da gripe, mas o confortará, tornará a relação com a dor, com a gripe, menos dolorosa. Podemos ilustrar ainda de outra forma; se uma criança cai, se machuca, chora, o que você faz? Qual sua reação natural? Tentar acolher, cuidar, para aliviar o sofrimento. O que fazemos conosco? Nos tratamos com o mesmo carinho e cuidado?

E o que a compaixão tem a ver com a alimentação? Quanto mais cultivamos aceitação, compreensão e compaixão por nós mesmos, mais motivados estaremos para fazer o que necessitamos para cuidar-nos, incluindo comer, já que a alimentação permeia toda a nossa vida, é recheada de memória, sentimentos, emoções…

A prática de auto compaixão protege contra as condutas alimentares de risco e o comer emocional. Há um vínculo positivo entre auto compaixão e exercício.

Você já reparou se existe uma voz julgadora dentro de você, que traz, em diferentes momentos e inclusive no momento de comer, frases rudes do tipo: Fracassada! Você nunca vai conseguir! Você não tem jeito mesmo!? Veja se é possível acolher essa voz crítica, julgadora, de forma mais compassiva; mesmo de uma forma ruim, a intenção é boa para com você; por trazer limites, regras. Com o tempo, se você levar abertura e curiosidade, estando atenta ao seu processo, talvez você possa, aos poucos, ir substituindo sua voz julgadora por uma voz mais compassiva; “Vamos lá, você consegue!” “Continue tentando!” “Você precisa cuidar de você!” “Confie e prossiga!!! “ “Melhor não é?”

Abandone o modo de pensar tudo ou nada; cada momento de comer é uma nova oportunidade. No contexto compassivo não cabe o “enfiei o pé na jaca” não tem mais jeito.

Você está se cuidando com carinho e respeito? Como você se cuida? Bebe água, pede um abraço, liga para um amigo… O que necessita neste exato momento de sua vida para ser feliz agora e não depois de perder os X ou Y quilos que idealizou? O que te impede?

Tudo bem que você esteja acima do peso, insatisfeita com seu corpo neste momento; “a felicidade não está onde estamos e sim onde a pomos e nós nunca pomos onde estamos” diz a poesia de Vicente de Carvalho, o poeta do mar. Viver assim só nos leva à ansiedade, à frustração. É preciso abrir espaço para a gratidão, amando antes de mais nada o que temos hoje, aqui e agora, acolhendo o que está, o que é, para que possa melhor se tornar!

Do fundo do coração desejo que você possa trazer o olhar compassivo, de respeito, de cuidado, de honra, de amor ao seu corpo e ao alimento que te nutre!

Autora: Daiana Garbin

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