Uma conversa com Jan Chozen Bays, Joseph Goldstein, Jon Kabat-Zinn e Alan Wallace de Margaret Cullen.

Mindfulness (atenção plena) desempenhou um papel fundamental no budismo ocidental, especialmente no ensino de Vipassana e em programas mais seculares, como a Redução do Estresse baseada em Mindfulness (MBSR). Ao me envolver com essas duas tradições, fiquei surpreso ao saber que os budistas tibetanos têm uma compreensão e um uso diferentes do termo mindfulness.

Algumas dessas diferenças surgem de fontes e interpretações canônicas divergentes que datam da época do Buda. Nossa intenção aqui não é apresentar um argumento acadêmico nem interpretações definitivas sobre mindfulness. Na verdade, gostaríamos de ajudar a explicitar a maneira como as correntes contemporâneas do budismo utilizam esse termo, principalmente porque os praticantes hoje têm oportunidades únicas de praticar com professores de todas as tradições budistas.

Para explorar mindfulness, Inquiring Mind convidou Jon Kabat-Zinn, o fundador de MBSR, que foi chamado de “Sr. Mindfulness” numa manchete no Washington Post; Alan Wallace, um grande conhecedor e prolífico escritor sobre budismo, com quem estou colaborando em outro programa de meditação secular, “Cultivando o Equilíbrio Emocional”; Joseph Goldstein, um professor de Vipassana conhecido por sua clareza cristalina e pelo não-sectarismo que explorou em seu livro One Dharma; e Jan Chozen Bays, monge zen e pediatra, cuja voz mordaz e espirituosa ouvi pela primeira vez no Congresso Mind and Life de 2005 em Washington, D.C.

Como estudei e trabalhei com esses professores, tive a honra de facilitar esse diálogo, juntamente com os coeditores de Inquiring Mind, Barbara Gates e Wes Nisker. —Margaret Cullen, M.F.T., Instrutora Certificada de MBSR*

I. O que é Mindfulness?
Inquiring Mind: À medida que os estudantes ocidentais do budismo exploram as diferentes tradições budistas, muitos encontram interpretações conflitantes de termos e práticas básicas. Em particular, o termo mindfulness é amplamente utilizado por professores e alunos ocidentais, às vezes de maneiras opostas. Conforme o que você aprendeu e ensina, o que é mindfulness?

Jan Chozen Bays: O que o Zen ensina sobre mindfulness? Acho que eu diria: “Ao comer, apenas coma. Quando estiver cansado, apenas durma.” Isso é muito significativo. Costumo dizer aos meus alunos que mindfulness é uma mente que está plena de tudo o que é, e não do que você pensa sobre tudo o que é.

Jon Kabat-Zinn: Quando ensinamos a Redução do Estresse Baseada em Mindfulness (MBSR), meus colegas e eu usamos a palavra mindfulness de várias maneiras diferentes, algumas mais restritas e outras mais amplas. Às vezes, uso mindfulness como uma espécie de termo genérico para o Dharma. Mas em termos de uma definição operacional de mindfulness para pessoas numa clínica de redução de estresse, ou para um público médico ou científico, costumo falar de uma consciência orientada no momento presente e cultivada quando se presta atenção intencionalmente, com uma qualidade mental que tem discernimento, que não julga, que não é reativa e que reflete como um espelho, existente sob o pensamento discursivo.

Alan Wallace: De todas as pesquisas que fiz sobre o tema, o significado principal de mindfulness, ou sati – no cânone páli, no cânone sânscrito e, mais tarde, no cânone tibetano – é o de recordação, de memória. De fato, acredito que sati é a única palavra em páli, sânscrito ou tibetano que significa “relembrar” ou “rememorar”. Como o próprio Buda diz: “O discípulo nobre é dotado de sati perfeito; é alguém que relembra o que foi feito e dito muito tempo antes.”

Mindfulness pode ser retrospectivo, como na categoria psicológica mais comumente entendida como memória. Pode ser no momento presente, como um fluxo contínuo de lembrar de lembrar de lembrar. E mindfulness pode ser prospectivo: lembrar de pegar o pão quando voltar do trabalho para casa hoje à noite.

No contexto meditativo, mindfulness nos permite manter nossa atenção em um objeto familiar sem distração. É claro que a atenção plena pode existir sem que essa memória seja útil para libertar a mente de suas tendências aflitivas. O tipo de mindfulness que liberta é aquele que discerne, que é inteligente e capaz de distinguir um tipo de fenômeno de outro. Em uma conversa recente que tive com Ajahn Amaro, conversamos sobre uma atenção plena discriminadora, que reconhece: “Isto é propício para meu próprio bem-estar e o bem-estar dos outros; isto não é propício. Isto leva ao sofrimento, isto leva à libertação.”

Joseph Goldstein: Um dos problemas que enfrentamos ao tentar entender o significado de certos termos, como mindfulness, é que as palavras em páli ou sânscrito geralmente incluem uma gama de significados, cada um com várias nuances de interpretação e implicação. No meu modo de entender, mindfulness é lembrar o objeto presente (sua função é não esquecer) com a implicação de que a mente naquele momento está livre de apego, aversão e ilusão. Portanto, mindfulness em si inclui o que Alan está referindo como o aspecto que liberta.

AW: Nenhuma das fontes sânscritas budistas, como o Tesouro do Abhidharma, de Vasubandhu, e o Compêndio de Abhidharma, de Asanga, equipara sati com atenção simples (bare attention) ou sugere que a atenção simples é intrinsecamente saudável. Tampouco as fontes budistas em páli, como As Perguntas do Rei Milinda, e o texto clássico de Buddhaghosa, O Caminho da Purificação. As definições budistas sânscritas de sati sugerem que mindfulness, na condição de um dos dez fatores mentais que está presente em cada momento mental (sem ser invariavelmente saudável), adquire as qualidades dos fatores mentais com os quais está associado.

No contexto dos Sete Fatores da Iluminação, por exemplo, mindfulness tem claramente, como diriam os eruditos religiosos, uma função soteriológica, isto é, a função de liberação. Por outro lado, um coelho pode estar muito atento ao seu ambiente, porque não quer ser comido. Uma raposa pode estar muito atenta a seus arredores porque quer comer o coelho. Nesses contextos, mindfulness não é saudável nem libertador. Um atirador de elite que está tentando atirar em alguém pode estar muito, muito atento. Claro, não há nada libertador nisso, mesmo que ele não faça isso com ódio ou desejo. O contexto é crucial.

JG: Creio que o Abhidharma na tradição Theravada explica mindfulness de modo um pouco diferente do que você mencionou, Alan. Conforme minha compreensão desses ensinamentos, mindfulness é sempre um fator saudável, ao contrário da concentração e da atenção, que são eticamente neutras. No contexto desses ensinamentos, não diríamos que uma raposa esperando para atacar um coelho tem mindfulness. Em vez disso, diríamos que está bastante concentrado e com muita atenção. A atenção como fator mental direciona a mente para o objeto e a concentração mantém-no sem distrações. É o mesmo com o atirador de elite. Ele pode estar concentrado; o fator atenção está certamente lá. Mas, num verdadeiro momento de mindfulness, não existe ganância, ódio e ilusão, ao contrário do estado mental da raposa ou do atirador de elite, em que provavelmente existe uma grande identificação com os fatores motivadores.

JKZ: Alan, de certa forma o que você está dizendo ressalta o motivo de eu utilizar mindfulness como uma espécie de termo genérico: se fosse utilizado apenas em sua definição operacional mais restrita, mindfulness seria desprovido de moralidade. Como no caso do atirador de elite, há aspectos na qualidade da atenção que realmente não têm, como você diz, nenhuma valência saudável ou prejudicial. Assim, no MBSR costumamos falar de mindfulness não apenas como atenção simples (bare attention), mas como uma atenção afetuosa. Aí se inclui uma orientação para não prejudicar e enxergar profundamente a natureza das coisas, o que de alguma forma implica, ou pelo menos convida, a ver a interconexão entre o que vê e o que é visto, o objeto e o sujeito.

Estamos tentando trazer mindfulness para a sociedade dominante de forma a atrair as pessoas para uma experiência de cultivo, reflexão e uma profunda intimidade com o momento presente, em que muito se inclui o elemento de discernimento. Se o que ensinamos não tivesse por trás o verdadeiro poder transformador e libertador do dharma desde o início, não haveria muito sentido em oferecê-lo como um desafio para as pessoas que sofrem em primeiro lugar.

JCB: Jon, quando você disse que não ensina apenas a atenção simples (bare attention), mas a atenção afetuosa, isso me pareceu um antídoto maravilhoso para a tendência da mente no Ocidente de abrigar sentimentos negativos não detectados e sutilmente onipresentes.
Quanto às instruções de meditação para os estudantes, eu diria que o Zen é provavelmente a tradição mais lamentável. As instruções que recebi foram: “Sente-se, fique de frente para a parede, conte sua respiração até dez e, se perder a contagem, comece de novo.” Isso foi tudo. O Zen é chamado de “a prática sem corrimão” por um bom motivo. Muitos dos ensinamentos em Zen são implícitos e não explícitos, e no Ocidente acho que ajuda a explicitar muito mais as coisas. Eu mesmo retornei ao cânone páli. Eu o leio e ensino o tempo todo. Recentemente dei um retiro sobre os Quatro Fundamentos de Mindfulness.

O Zen tende a ir diretamente para o substrato mental, o que considero o quarto fundamento de mindfulness. Mas acho útil percorrer gradativamente os quatro fundamentos, começando com apenas o corpo como corpo, e passando aos sentimentos como sentimentos, conteúdos mentais e, em seguida, a base mental. Para mim, há três aspectos de mindfulness.

Já os mencionamos, mas não explicitamente como três. O primeiro é a atenção simples (bare attention), uma plena consciência, idealmente sem apego, aversão ou autoidentificação. Isso, para mim, é mindfulness aperfeiçoado, samma-sati. Antes disso, temos muito tempo de mindfulness relativo. Continuamos aperfeiçoando mindfulness. Pode-se começar como uma atenção simples e depois o cultivamos. Alan mencionou o segundo aspecto de mindfulness, o ato de rememorar e retornar, o que nos traz de volta ao primeiro aspecto, a atenção clara ou a consciência clara. O terceiro aspecto de mindfulness é o de ver profundamente as coisas, no nível micro e também no nível macro. Mindfulness é como um microscópio e um telescópio; ele pode ser focado no espaço entre milissegundos e pode ser ampliado para estender nossa consciência às forças do universo.

JKZ: Gostaria de acrescentar que, na minha opinião, mindfulness desempenha um papel especial entre todos os outros elementos do Caminho Óctuplo. Uma visão de mindfulness que me influenciou profundamente desde o início foi a de Nyanaponika Thera em The Heart of Buddhist Meditation (O Coração da Meditação Budista). Ele escreve: “Mindfulness, então, é a chave mestra infalível para conhecer a mente, e é, portanto, o ponto de partida; a ferramenta perfeita para moldar a mente e, portanto, é o ponto focal; e a elevada manifestação da liberdade alcançada da mente, e é, portanto, o ponto culminante.”

JG: Eu acho que é verdade no sentido de que, através da prática de mindfulness, todos os outros fatores da iluminação (investigação, energia, êxtase, tranquilidade, concentração e equanimidade) são automaticamente cultivados. Mindfulness tem essa função de reunir os outros fatores da iluminação.

II. Esclarecendo Termos Relacionados
IM: Assim como o termo mindfulness é usado de várias maneiras, dependendo da tradição, da fonte histórica ou do contexto (como o Caminho Óctuplo ou os Sete Fatores da Iluminação), outras práticas relacionadas também costumam ser ensinadas com significados conflitantes. Vamos tentar esclarecer algumas das diferenças.

Mente
JG: Os estudantes podem ficar desorientados quando os professores utilizam a mesma palavra denominar coisas diferentes, principalmente quando não a definimos para o uso nesse contexto específico. Por exemplo, muitas vezes utilizamos as palavras mente, consciência e atenção plena como sinônimos. Em outras ocasiões, esses termos podem ter significados bastante distintos. A mente pode se referir a toda a gama de atividades mentais; também pode significar “consciência”, a faculdade conhecedora, por oposição aos cinquenta e dois fatores mentais. Às vezes usamos atenção plena para significar “consciência”, outras vezes mindfulness, e por vezes ainda, “mindfulness mais sabedoria”. A questão aqui é que, ao traduzirmos alguns termos muito específicos do páli ou do sânscrito, muitas vezes não encontramos termos equivalentes em nossa língua com significados precisos. A criação de um dicionário de termos padronizados talvez um projeto digno para os budistas ocidentais.

Samadhi
AW: Às vezes, creio que samadhi tem uma má reputação quando comparado a mindfulness, como se samadhi tivesse uma qualidade de fixação ou visão bitolada. Quando inserido no Caminho Óctuplo, dentro da estrutura tríplice de sila, samadhi e pañña, a ênfase é em samadhi, e não em mindfulness. Samadhi é o controle de si e a calma mental, uma espécie de sanidade elevada. E pode ser focado em um único ponto, um campo completo de experiência ou um fluxo contínuo de eventos, como a respiração ou os pensamentos. Mindfulness, como o fator mental de não esquecer um objeto experimentado, apóia samadhi, que é o foco sustentado e coerente da atenção no objeto escolhido. No Vipassana, aplica-se com discernimento o mindfulness (como nas Quatro Aplicações de Mindfulness) que já foi cultivado na prática do samadhi.

Sampajañña
AW: Há outro fator – e é surpreendente que apareça tão pouco em tudo que li da moderna tradição Theravada – chamado sampajañña em páli. É traduzido de modos diversos como “compreensão clara” e “consciência plena”. Trata-se mais do monitoramento introspectivo do estado do corpo e da mente, tanto internamente quanto em relação ao meio ambiente. Para atingir samadhi, para equilibrar a atenção, precisamos não só de mindfulness a serviço de samadhi, mas também desse monitoramento, esse controle de qualidade de mindfulness, de modo que, quando a mente entra num estado de indolência, conseguimos perceber isso muito rapidamente. Conseguimos, também, discernir estados mentais de excitação, divagação, distração e assim por diante. Sampajañña, então, tem uma função metacognitiva, e tanto mindfulness como sampajañña são fundamentais para equilibrar a mente. Sem essa consciência de nossos próprios processos mentais, operamos basicamente no piloto automático, por puro hábito.

JKZ: Certo. É exatamente por isso que costumo incluir a dimensão da metacognição, ou meta-consciência, sob o conceito guarda-chuva de mindfulness; podemos estar atentos à qualidade de nossa consciência, assim como a qualquer outro objeto de atenção. Ao introduzir o cultivo de mindfulness para pessoas que não têm experiência com a prática formal de meditação, essa orientação é tecida na prática de uma maneira que se torna quase uma segunda natureza para as pessoas. Quem está começando logo percebe que há muito mais acontecendo do que apenas a respiração.

Vemos com que facilidade nos distraímos e logo percebemos que há uma faculdade que realmente é consciente do momento em que nossa mente divaga; caso contrário, nunca a traríamos de volta. Não estou criticando em absoluto as várias abordagens acadêmicas mais precisas sobre isso. Estou apenas tentando encontrar uma linguagem, um contexto e um contêiner que possa fazer com que os elementos dármicos e liberadores da prática estejam disponíveis para as pessoas, de maneiras extremamente hábeis, que gerem mínima resistência e que não desnaturalizem nem compliquem, o que afastaria a fundamental beleza e simplicidade do estado desperto e da sabedoria.

JG: Na verdade, fala-se muito em sampajañña nos ensinamentos Theravada. Recentemente, fiz um retiro com Sayadaw U Pandita e ele falou muitas vezes sobre essa qualidade da mente. Uma das aplicações interessantes da compreensão clara é que se aplica, além do que nos acontece internamente, à nossa relação com o ambiente e com o que nos cerca. Por exemplo, um aspecto da sampajañña é considerar a adequação de uma ação. Isso abre todo o aspecto da motivação, de considerar se a ação é saudável ou não, e (caso seja saudável) de avaliar o momento certo para agir. Vejo isso como uma função importante de sampajañña: ampliar o contexto de mindfulness mais além de atender apenas ao nosso processo interno.

Buddhist monk meditation in temple

Shamatha, Mindfulness, Vipassana
IM: Joseph, você poderia diferenciar entre as práticas de shamatha, mindfulness e vipassana?

JG: Em certas tradições Theravada, existem algumas distinções claras entre shamatha e vipassana. Na prática de shamatha, tomamos um único objeto de concentração, como a respiração, ou uma luz, ou uma imagem etc., e treinamos a mente para permanecer focada no objeto. Aqui, a ideia não é ver a sua natureza mutável; na verdade, há toda uma sequência de práticas e experiências que levam a mente à absorção no objeto. Em vipassana, por outro lado, o objetivo é ver as três características: impermanência, insatisfação e não-eu.
Então shamatha e vipassana têm funções muito diferentes. A palavra vipassana significa “ver claramente” ou “ver precisamente.” Passana significa “ver” e vi significa “com clareza ou precisão,” que se refere a aprofundar a penetração ou abertura para as três características. Nós treinamos para ver o momentâneo surgir e desaparecer de todos os fenômenos e a sabedoria de não-apego que surge dessa visão clara. Obviamente, quanto mais profunda é a concentração que provém da prática de shamatha, mais poderosa se torna a prática de vipassana. Então considero que as duas práticas se reforçam mutuamente. O próprio Buda disse que a concentração é o fundamento da sabedoria. Podemos considerar vipassana como o termo genérico e abrangente para técnicas meditativas que conduzem à liberação. Mindfulness é uma prática central de todos esses ensinamentos. E, como mencionado anteriormente, mindfulness reúne todos os demais fatores da iluminação.

III. Mindfulness no Mundo Moderno
IM: Como você honra essas tradições antigas e, ao mesmo tempo, permite que o desenvolvimento do Buddhadharma no Ocidente seja um processo dinâmico?

AW: Vejo essa geração contemporânea de professores e praticantes budistas em diálogo com o continuum dos antecessores, remontando diretamente ao próprio Buda. Não se trata de sermos apenas bonecos obedientes e repetir o que a última geração disse. Mas na medida em que estamos preservando as correntes de tradições budistas, que interessam a algumas pessoas e a outras não, a volta aos significados originais dos termos que utilizamos proporciona certa continuidade. Não devemos congelar o significado dos termos e conceitos budistas, mas pelo menos devemos saber de onde provêm e como os estamos utilizando, baseando-nos em seu uso tradicional.
Creio que hoje em dia que existe o perigo de criar polaridades artificiais, por exemplo, ao estabelecer uma clara distinção entre acadêmicos e praticantes. Nessa dicotomia exagerada, os acadêmicos são retratados como ratos de biblioteca que têm apenas um interesse intelectual no budismo, enquanto os praticantes se veem como pessoas que realmente buscam a experiência. Nesse cenário, os praticantes costumam menosprezar os acadêmicos, os acadêmicos menosprezam os praticantes, e os acadêmicos mais renomados menosprezam os acadêmicos menos renomados [risos].

IM: É por isso que estamos todos conversando hoje: para facilitar a comunicação e o entendimento. Mindfulness no mundo moderno precisa de uma linguagem que possa servir aos interessados na profundidade e beleza da linhagem, bem como àqueles que simplesmente buscam alívio do sofrimento do estresse e das inúmeras manifestações de doenças resultantes de nossa rápida cultura de consumo.

JKZ: Esses tempos exigem algum tipo de reconhecimento real do potencial poder transformador do Dharma.

JG: Talvez não mais que em qualquer outro momento, mas certamente agora. Mover-se em direção a um sofrimento maior ou ao alívio do sofrimento depende de se estar consciente ou não de nossas emoções.

JCB: Essa é a beleza dos estudos que você fez, Jon; eles são elaborados num contexto que as pessoas podem entender. Elas acreditam que isso as tornará mais saudáveis e então ficam curiosas e começam a investigar. É maravilhoso ver as pessoas começarem a fazer meditação mindfulness para a pressão arterial e, na quarta semana, começarem a se perguntar: “Quem está realmente pensando? Quem sou eu? O que está acontecendo aqui?” Mindfulness é uma forma maravilhosa de atrair as pessoas.

IM: Como instrutor da MBSR, tenho visto uma tremenda fome pelo alimento que mindfulness proporciona.

JCB: Imagino que as pessoas nos tempos primitivos tinham mais desse alimento em suas vidas: elas contemplavam as fogueiras nos acampamentos, paravam perto de riachos tentando intuir onde estavam os peixes simplesmente pelo fluxo da água, e deitavam-se nas encostas à noite com suas ovelhas observando o céu. Então, estamos proporcionando algo que havíamos esquecido, deixado para trás. Quando isso volta para a vida das pessoas, mesmo no contexto de sala de aula do MBSR, as pessoas se sentem nutridas, saudáveis e livres.

IM: No Mind and Life Conference de 2005, notei várias vezes quando Sua Santidade, o Dalai Lama, não parecia se conectar com a maneira como os ocidentais estavam usando a palavra mindfulness. Isso me fez pensar se ele reconhece plenamente como estamos famintos por esse medicamento e como é ampla a aplicação que pode ter em nossa cultura.

JCB: A ideia de estresse pode ser estranha para alguém que passou a vida inteira fazendo o que seus tataravôs faziam, por exemplo, observar sem pressa de que forma o gelo congela. Talvez mindfulness seja muito mais presente quando determinada cultura não é altamente evoluída em termos tecnológicos, quando a informação não jorra em você o tempo todo, quando as pessoas não estão abarrotando suas mentes de conhecimento em busca de diplomas.

AW: Vi vários pontos naquela conferência em que houve uma desconexão. Sua Santidade é bem versada em todas as escolas do budismo indiano e tibetano, mas a forma em que alguns termos budistas são usados na moderna tradição vipassana difere das tradições budistas com as quais ele tem familiaridade. Além disso, a prática da atenção simples não é proeminente na tradição tibetana como um todo, a qual inclui uma gama extremamente rica e diversificada de práticas de meditação. Há outro fator aqui, também, que acho que escapa facilmente da nossa visão. Em vários países budistas tradicionais ─ o Tibete é um bom exemplo disso ─ existe uma fé e uma devoção incríveis. Eu me considero um budista bastante devoto, mas o nível de fé e devoção de uma mulher tibetana idosa que vive em regiões ermas do Tibete é inimaginável para mim. É difícil compreender o grande trauma que os tibetanos sofreram com a invasão de seu país, como a tortura e o genocídio. No entanto, eles se saíram muito bem, considerando que muitos estão relativamente livres de transtorno de estresse pós-traumático. A saída deles foi pela fé, não pela mera atenção; simplesmente esta não é uma característica central da prática budista tibetana.

JKZ: Após a Mind and Life Conference, algumas coisas interessantes aconteceram nas reuniões com Sua Santidade. Como você sabe, em minhas apresentações, às vezes, equiparo o estresse a dukkha (sofrimento), assim como fazem vários outros professores contemporâneos. Agora, na língua tibetana não há um termo equivalente para “estresse”. Mas, num momento posterior da semana, quando Sua Santidade falou na frente de catorze mil neurocientistas, em certo momento ele disse: “Acho que o Dalai Lama está um pouquinho estressado.” Foi surpreendente.

AW: Ele aprendeu uma nova palavra.

JKZ: E a usou de maneira totalmente apropriada e com muito humor.

JG: Ao expressar o alcance e a prática de mindfulness, é importante lembrar que o treinamento geralmente é difícil. Munindraji, meu primeiro professor, costumava dizer: “Mindfulness é simples, mas não é fácil.” O Buda falou que a prática é como nadar contra a corrente, nadar contra a corrente do nosso condicionamento. Ao longo do caminho, enfrentamos desafios e diferentes obstáculos. Isso faz parte do caminho. Os tempos de nossas maiores dificuldades costumam ser também tempos de nossas melhores ideias.

IM: Alguma reflexão final?

JCB: Quanto mais eu pratico, mais tenho absoluta fé de que o que o Buda ensinou é verdadeiro ─ mindfulness realmente funciona, começando com o corpo como corpo, os sentimentos como sentimentos e passando aos objetos mentais e finalmente ao substrato mental. Tem que ser feito nessa ordem. Então, quando o substrato mental se torna muito grande e entra em colapso devido à impermanência, começamos novamente com o corpo.

AW: Como nota final, gostaria de repetir o adágio budista de que sabedoria sem compaixão é servidão, e compaixão sem sabedoria é servidão. Mindfulness pode servir tanto ao cultivo da sabedoria como da compaixão. Temos os quatro Brahma-viharas (bondade amorosa, compaixão, alegria empática e equanimidade), que considero um complemento maravilhoso, elegante e grandioso das Quatro Aplicações de Mindfulness. Ao perceber a interrelação, a sinergia, entre o cultivo ativo do coração e o cultivo da sabedoria, a prática do Buddhadharma torna-se muito rica, muito equilibrada.

JKZ: Acho maravilhoso ter uma diversidade de pontos de vista e pensarmos até que ponto mindfulness é memória, até que ponto é atenção simples, até que ponto é uma presença aberta. Todas essas expressões de mindfulness, como bem disse Alan, não estão congeladas. Caso contrário, o budismo seria um museu pitoresco. Na verdade, são forças que estão realmente transmutando nossas próprias vidas e até nossos próprios corpos, enquanto praticamos e vivemos nossas vidas.

JCB: Assim, talvez a nossa última mensagem seja praticar mindfulness e então você descobrirá o que é.

Autora:
Margaret Cullen é uma instrutora certificada de Redução do Estresse Baseada em Mindfulness, terapeuta familiar e professora sênior do Center for Compassion, Altruism, Research and Education da Universidade de Stanford. Ela é coautora de The Mindfulness-Based Emotional Balance Workbook: An Eight Week Program for Improved Emotion Regulation and Resilience (New Harbinger Publications, 2015) e outras publicações.

Extraído da edição de primavera de 2006 de Inquiring Mind (Vol. 22, No. 2)